não tenho botado óleo na minha máquina mental de escrever e parece que deu uma enferrujada. as ideias chegam bonitas, os dedos afoitos até tentam dar uma espremida nelas, mas as teclas emperram. às vezes bate uma letra só, gaguejando de apreensão, a tinta falha, o papel amassa… será que as palavras andam tímidas e preferem uma madrugada insone? muito ariscas para o meu gosto. talvez não as tenha alimentado direito, ou pisado na pata de uma delas? quanta babaquice.
seja como for, estou aqui agora com um chicotinho ardido para agitá-las fora da minha cabeça e mostrar pra vocês um pouquinho do que eu NÃO fiz durante os últimos meses.
1. o metrô. como meu assunto preferido da cidade de S. Paulo, poderia narrar venturas e desventuras pelas diversas estações da cidade, a sensação de ser jogada para fora do vagão como parida de um útero mecânico com 20 gêmeos ao mesmo tempo. todo o calor e proximidade humanos do horário de pico, em que todos se encoxam por todos sem trocar um olhar, e uma mochila vira uma pedra de sacrifício irregular prensada brutalmente contra os corpos. é nesses momentos que o trem dá uma parada abrupta, e uma voz do além comunica a todos que há um usuário na linha, um coitado que levou todo o choque da massa de gente pressionando por trás, querendo garantir seu espaço. a mesma voz também parece gostar de chamar os tais usuários de “jovens cidadãos”, e, tal pai preocupado, reafirma regras de conduta para que as pessoas pensem que o caos são as atitudes delas. quando me disse com um sorrisinho para que segurasse nas barras, evitando quedas, quase me senti tomando uma bronca pessoal. deveria colocar a mão no cano ensebado quando é tão mais divertido praticar o equilíbrio? e todos se agarram a ele, com medo dos movimentos súbitos, alguns nem percebem onde estão e o que fazem por andarem o dia inteiro com outro ambiente enfiado nos ouvidos. não ouvem quando a voz do pai diz que o trem será recolhido para atender outros filhos na linha vermelha, e provavelmente no futuro vão continuar surdos mesmo sem os fones da isolação. o entretenimento é garantido pela TVMinuto e todas as propagandas que variam com as estações comerciais do ano, com só um tema invariável – um bando de gente sorrindo para você, como se a maior garantia de um bom serviço fosse a felicidade das pessoas que fizeram aquela escolha (e desculpe decepcioná-los, mas não são aquelas que aparecem nas fotos). quando sai o resultado dos vestibulares públicos, aparecem mil oportunidades de formação superior a “alternativa”. o próprio metrô adora falar de si mesmo, o quanto se expande e aprimora, e usa rostinhos felizes de novela para pedir um “trânsito mais amigável”. é o mesmo que pedir cinicamente que 15 pessoas andando num quarto e sala não se desentendam ou trombem.
ali é o não-lugar, descemos para o subsolo, escolhemos um vagão, e saímos na outra ponta, o trajeto desapercebido, como se nunca tivéssemos percorrido distância alguma, só o tempo passado em branco (ou com um livro, se você for mais esperto). os outros, a Voz, os cartazes e a tv preenchem a cabeça por alguns minutos e assim que encontramos céu aberto são empurradas para sei lá onde, são os resquícios do joguinho cotidiano. com ele, já aprendi que ao escolher o vagão da bicicleta na Sé eu saio direto na escada rolante da Barra Funda, e a minha libertação das algemas que são as barras me dão uns bônus de circulação mais desenvolta. mas da barraquinha de vacinação eu não chego perto. é no mínimo engraçado que o maior não-lugar de transmissão de doenças também promova aos jovens cidadãos que se imunizem. junte com as grades que colocaram na plataforma e temos aí o nosso curralzinho completo. e assim esperamos o momento do abate.
quando comecei pretendia falar sobre mais coisas, mas o metrô causa um efeito tão grande na minha pessoa que até as palavras se desbloqueram por uns momentos. é pena, fica para outra vez os arco-íris mais coloridos que já vi por aqui, a partir de um ônibus lotado da Av. Rebouças, e como o padre Anchieta me guiou até o centro da cidade (é sério).
bons calafrios pra vocês que o frio não arrega tão cedo. cadê minhas meias de lã que a vovó fez?
ah, o metrô. Um verdadeiro bairro a parte, onde todos realmente se misturam.