uma obra alimentícia

2 set

eu poderia falar que é só um pão de tahine com açúcar mascavo. e é mesmo, ficou gostoso pacas, comi até enjoar e tal. as formigas não curtiram, ainda bem. o último exemplar da fornada ficou na assadeira por mais de uma semana esperando uma boca faminta, mas só conseguiu servir de modelo para uma sessão de fotos (o que é um destino até que aventuroso para as ambições de qualquer massa). com uma olhada não tão atenta assim, logo se percebe que ele não era bem como os outros pães. aliás, só analisando cuidadosamente é que se vê um pão.

(reação da primeira testemunha: é um cocôôô como que vou comeeer?)

eu poderia também tê-lo envernizado e botado um título honroso: homenagem à primeira criação humana. porque é isso mesmo o que a gente faz, ingere, digere e um tempinho depois vai lá expelir o resultado final. só vira arte se tem etiqueta, meu amigo. quem nunca admirou suas obras-primas intestinais emolduradas pelo vaso de porcelana, através de um vidro de proteção aquoso? as variações de odores, texturas e tons podem ser intrigantes, principalmente quando se especula se aquela parte mais mole e verdolenga no dia anterior ainda parecia um apetitoso punhado de brócolis. ah, como é belo o poder de transformação!

inclusive essa é uma boa sugestão de jogo de adivinhações para dias chuvosos, ou em que a coisa mais interessante que você produziu saiu pelo seu ânus. chame os amigos, compartilhem suas criações espontâneas. analisar a própria merda é treinamento leve, melzinho na chupeta; afinal de contas presumo que você deve saber sobre o seu último jantar (se não… bom,  aí o problema já é outro). desafiante mesmo é reconstituir as refeições alheias, quase um talento de perícia. ouvi dizer que alguns cientistas são especialistas nisso. basta olhar para um monte de excremento… ahá, pelo jeito este elefantinho andou comendo amendoins demais. sua intimidade com o meio chega a tal nível que sabem datar o horário exato em que ocorreu a defecação pela consistência, temperatura e tipo de inseto habitando o dejeto.

(aproveito a brecha para fazer uma confissão: às vezes tenho o péssimo costume de julgar as pessoas pelo cocô que fazem. três bolotas escuras e secas, expelidas com um esforço formidável depois de um dia e meio, é broxante. menos hambúrguer e mais fibra, rapaz, aí a gente conversa.)

mas só um dia de intensa inspiração culinária possibilita o nascimento de uma comida que já aparenta ter sido processada por outro organismo. alguns poderão considerar mau gosto, como a primeira testemunha. vão em frente. nessas horas ninguém lembra mesmo que cerveja choca se assemelha muito a um potinho de mijo concentrado. quando o álcool tá acabando, o mercado já fechou e a galera ainda tá na pilha, a gente vira o copo mesmo, não tá nem aí pro que parece ou deixa de parecer. e se o pãozinho tá saboroso e nutritivo (hmmmm!), o estômago tá roncando e contorcendo, não é até divertido que ele por acaso (ou achou que foi calculado? as obras têm vida, você é só um reles instrumento), que ele por acaso tenha saído do forno parecendo que veio direto daquele cantinho no quintal forrado pro cachorro companheiro? ele eu garanto que não ia se importar nem um pouco. o ser humano é um ser visualmente complicado…

EEENTRETANTO, eu vos entendo. juro que sim. ninguém quer comer algo que pareça merda. ninguém vai ao restaurante desejando ardentemente um bolo de esterco, a não ser que inventem um lugar para a sua árvore da felicidade socializar com outras plantinhas enquanto obtém adubo de qualidade. aí eu lanço uma questão filosófica profunda: vocês comeriam merda que pareça comida? pensem com carinho. a resposta virá na hora certa. nem antes, nem depois. caham.

e a próxima barreira a ser quebrada é justamente esse inverso: cagar algo parecido com um pão francês, ou um pão preto, pra sermos mais condizentes com a realidade. esta é uma missão só para aqueles que se aprofundaram com dedicação nas correspondências entre as fases pré/pós digestão do alimento, a ponto de manipular previamente o resultado. se alguém conseguir tal feito, mande uma fotinho que a gente monta uma série conceitual, com a devida identificação de ARTE pra não confundir o povo.

ó insígne partinte

5 ago

- Lulona? Quem é Lulona? Essa coisa aí gosmenta que ce trouxe pra nadar no tanque de casa?

-  Coisa gosmenta?? Era bom um pouco de respeito… na realidade eu prefiro o termo  “cefalópodo altamente desenvolvido”. Os pés saem da cabeça, saca? Mais inteligente que você. Além de gigante, espécime raro da fauna marinha.

- Ah vai, nem é tão grande assim.

- Bom, comparada com as outras lulas…

-…continua sendo mirradinha. Nem dá pra fazer um ensopado que chegue pra nós duas, pô. Olha aí.

SLBLORF. Lulona espasma e um tentáculo molenga sai da água para grudar na lateral do tanque.

- Ensopado? Como ousa? Quer dizer então que não é capaz de enxergar sua complexa alma, a riqueza interior que a posiciona numa alta esfera da evolução aquática?

- Eh… só vejo que no exterior parece um pouco com um pênis. Ou uma seta vermelha.

Enquanto isso, Lulona tenta debil e vagarosamente recolher o tentáculo grudado. Ventosas não são muito práticas…

- Até pode ser. Mas essa cabeçona só pode significar uma grande capacidade cognitiva.

- Sei não… se pá essa enorme capacidade acaba digerida na barriga das baleias.

Lulona ainda ensaiava uma luta desanimada.

- Oh querida, está com dificuldades? Vou te dar uma ajudinha, espera aí.

E foi metendo a mão. Lulona, vendo uma oportunidade de fugir, lançou o resto de seus 9 braços pra cima da dona orgulhosa, fincando as ventosas, que grudam em qualquer lugar mesmo.

- PORRA!!! Bicho idiota, me solta!! Que nojo!

- Hahahahaha.

-  TIRA ELA DAQUI, TÁ DOENDO, CACETE!

- Hahahahaha.

Cena ridícula de desespero. Rodopiou, bateu, xingou, se jogou contra a parede – e Lulona ali, agarradinha, sem nem saber direito o que tava acontecendo. Squish. Sblorf. Nheca.

- AAAGH SAIIII BICHO GRUDENTO!

- Faz assim. Enfia o dedo nesse olho dela.

Se contorcendo e babando, ela conseguiu mirar o mindinho direto na bola preta. Outro som de gosma espremida, e depois de uma rajada de tinta preta a porra da Lulona finalmente desgarrou. Por mero reflexo, que fique claro. E caiu no chão com seu Sblorf molhado e final.

- Ainda me mija toda esse troço cheio de braço!

Mas Lulona, com seu instinto impecável, ainda que cansada reúne forças para tentar se grudar no pé dela.

- Mas você não desiste, não????? TOMA!!! E PRONTO

Pisão certeiro na cabeça avantajada. Que aliás nem era uma cabeça – e foi bucho pra todo canto do quintal.

- Ih, isso aí vai ficar um fedô. Chatinho de limpar. Não quer pegar os restos pra fazer aquele ensopado, hein?

- Ensopado? Porra! Você ainda pensa em comer esse animal mongo que me atacou? Nem pra isso serve, vai direto pro ralo ser ensopado no esgoto.

- Hahahahaha.

E essa foi a história de como “Lulona” encontrou seu fim. É, foi só isso mesmo.

lulas são vermelhas, baleias são azuis

12 jul

boa noite, persistentes leitores!

vocês perceberam a minha preguiça para atualizar Lulimensa. como pessoa interessada nas estranhas sabotagens da mente, comecei a ponderar os motivos de tal apatia. poderia ser… um descontentamento com a minha produção escrita? um profundo questionamento dos meus valores, que afetam diretamente minha produção escrita?  a súbita ideia de que não sirvo para as palavras grafadas como meio de comunicação, esssencialmente masculinas, para dar preferência à milenar arte da costura? quem sabe até uma regressão a um estágio pré-produção de textos, uma dessas situações inexplicáveis?

(estaria de saco cheio de me vincular a um animal marinho estúpido e ingênuo que mais parece um pênis de proporções sobrehumanas?)

nada disso. entristecida e saudosa, resolvi visitar Lulona outra vez, olhar bem fundo em seus olhos para ver se me inspirava uma solução ao dilemma. encontrei a velha cabeçona das últimas estações, aquarelinha de 2007 digitalizada porcamente, e o corpinho… não, que coisa desatrativa, eu não compraria esta lula se a visse no aquário. mesmo com desconto. e então que a causa da doença, se surpreenderá o leitor, nem afagava questões idealistas e metafísicas que causam comoção a tantas mentes complicadas – acendeu-se a luz com a repulsa por aquele branquinho com azul gritando default!, que só foi elegante em porcelana chinesa nas médias idades humanas. começou a ficar cafona quando a galera foi Renascendo, e a corte portuguesa, nova-rica das colônias e com manias de chinachic, começou a produzi-las adoidado para mostrar que tinha tradição em objetos reais, imitando os imitadores de produtos com alguns séculos de antecedência. e isso só foi possível porque azul de cobalto é pigmento abundante e barato. (há lendas que juram ser o cobalto raríssimo na natureza, formando minérios em milhares de anos sob condições ideais de temperatura e pressão, tão delicado elemento. mas acho que isso é só para manter uma falsa aura de realeza. vejam, a exemplo disso, esta declaração apaixonada de um português à sua herança cromática, encontrando nela sua redenção. azul cobalto.: …uma cor.)

vagabundo ou sagrado historicamente, na web, o preto com azul sob um fundo branco me passa a impressão de trabalho pela metade, salvo algumas poucas exceções. a cor em si não me agrada tanto, calma demais, tranquila demais, absorvente demais. e já temos um céu grandinho aí em cima. movo meu olhar um pouco para a esquerda e percebo que o WordPress é azul. o Twitter e sua baleia são azuis. o del.iciou.us é azul. o Hotmail é azul. a barra do Windows é azul. e eles conseguem ser assim, azuis, sem que se tenha questionado essa preferência unânime. ainda mais – conseguem mantê-la como uma cor séria e sóbria, digna de respeito administrativo e real. será por alguma facilidade técnica? não sei. talvez alguém tenha gostado e os outros só acharam legal.

enquanto isso, dentre os temas desajeitados do WordPress me apareceu Buono, rosado e atraente (feito pra meninas?), que não me irrita em nada – certo, só o fundo polkadotted que já vou mudar já. o maldito padrão de bolinhas de que tenho fugido desde que abri meu armário, com pressa, e percebi que perdia mais da metade da combinação de roupas por resultarem num traje inteiro pintado. era tão grave que comecei a pensar em uma saia p&b como disfarce de galinha d’angola. fora isso, elas também atordoam a vista e significam fertilidade para algumas tribos indígenas.

mas meus blogs sempre foram peladinhos. fortalecia a escrita. sonho algum dia encontrar um tema como o que usava no LiveJournal – o texto tahoma negro flutuando sozinho no centro da página, links em roxo, um pequeno avatar acima indicando título da página/autoria, e um monte de espaço libertador nas laterais. limpeza e elegância, em sua melhor forma. mas tou curtindo essa bolota rosa com a data. caloroso.

e sejam bem-vindos mais uma vez. Lulona viiiiiive.

guapanápole/2006

27 mai

Maio para mim é época de revisões, acho que é a proximidade do inverno. Ano passado, na mesma época, resgatei uma série de posts (I, II, III & IV) que agora se completam com esta coletânea de 12 textos de guapanápole, o meu blog do LiveJournal, tal como apareciam por lá. O lugar era simpático, a minha pessoa nem tanto. Era costume carregar o meu destino com uma tonelada. Então vamos retalhar o peso passado para seguir em frente sem nada às costas. São relatos, memórias, impressões, imagens mentais e romantismos que até se destacam dentre os desabafos. E – vishe – haja melancolia pretensiosa com café…

Agora mesmo, lavando a louça e ouvindo o álbum Ram, do Paul McCartney, pensei que não adianta re-publicar o que já foi. Foi interessante re-vê-los, mas fazer mais cópias, ainda que selecionadas, re-vive o peso de quando os escrevi.  Muitos re-s aí, assim não dá, fora o tempo que perdi preparando o post e mudando de ideia logo em seguida. Ao menos mudei de ideia… só falta usar o blog para escrever coisas mais produtivas aos leitores do que meu passado.

Ia escrever ao menos uma frase pra cada texto, dialogando com os dias de hoje e blablabla; mas deixa eles quietinhos aí, já disseram o suficiente quando tinham algo a dizer, dentre tantas inutilidades que já disse (?).

textos que nunca foram – metrô

12 mai

não tenho botado óleo na minha máquina mental de escrever e parece que deu uma enferrujada. as ideias chegam bonitas, os dedos afoitos até tentam dar uma espremida nelas, mas as teclas emperram. às vezes bate uma letra só, gaguejando de apreensão, a tinta falha, o papel amassa… será que as palavras andam tímidas e preferem uma madrugada insone? muito ariscas para o meu gosto. talvez não as tenha alimentado direito, ou pisado na pata de uma delas? quanta babaquice.

seja como for, estou aqui agora com um chicotinho ardido para agitá-las fora da minha cabeça e mostrar pra vocês um pouquinho do que eu NÃO fiz durante os últimos meses.

1. o metrô. como meu assunto preferido da cidade de S. Paulo, poderia narrar venturas e desventuras pelas diversas estações da cidade, a sensação de ser jogada para fora do vagão como parida de um útero mecânico com 20 gêmeos ao mesmo tempo. todo o calor e proximidade humanos do horário de pico, em que todos se encoxam por todos sem trocar um olhar, e uma mochila vira uma pedra  de sacrifício irregular prensada brutalmente contra os corpos. é nesses momentos que o trem dá uma parada abrupta, e uma voz do além comunica a todos que há um usuário na linha, um coitado que levou todo o choque da massa de gente pressionando por trás, querendo garantir seu espaço. a mesma voz também parece gostar de chamar os tais usuários de “jovens cidadãos”, e, tal pai preocupado, reafirma regras de conduta para que as pessoas pensem que o caos são as atitudes delas. quando me disse com um sorrisinho para que segurasse nas barras, evitando quedas, quase me senti tomando uma bronca pessoal. deveria colocar a mão no cano ensebado quando é tão mais divertido praticar o equilíbrio? e todos se agarram a ele, com medo dos movimentos súbitos, alguns nem percebem onde estão e o que fazem por andarem o dia inteiro com outro ambiente enfiado nos ouvidos. não ouvem quando a voz do pai diz que o trem será recolhido para atender outros filhos na linha vermelha, e provavelmente no futuro vão continuar surdos mesmo sem os fones da isolação. o entretenimento é garantido pela TVMinuto e todas as propagandas que variam com as estações comerciais do ano, com só um tema invariável – um bando de gente sorrindo para você, como se a maior garantia de um bom serviço fosse a felicidade das pessoas que fizeram aquela escolha (e desculpe decepcioná-los, mas não são aquelas que aparecem nas fotos). quando sai o resultado dos vestibulares públicos, aparecem mil oportunidades de formação superior a “alternativa”. o próprio metrô adora falar de si mesmo, o quanto se expande e aprimora, e usa rostinhos felizes de novela para pedir um “trânsito mais amigável”. é o mesmo que pedir cinicamente que 15 pessoas andando num quarto e sala não se desentendam ou trombem.

ali é o não-lugar, descemos para o subsolo, escolhemos um vagão, e saímos na outra ponta, o trajeto desapercebido, como se nunca tivéssemos percorrido distância alguma, só o tempo passado em branco (ou com um livro, se você for mais esperto). os outros, a Voz, os cartazes e a tv preenchem a cabeça por alguns minutos e assim que encontramos céu aberto são empurradas para sei lá onde, são os resquícios do joguinho cotidiano. com ele, já aprendi que ao escolher o vagão da bicicleta na Sé eu saio direto na escada rolante da Barra Funda, e a minha libertação das algemas que são as barras me dão uns bônus de circulação mais desenvolta. mas da barraquinha de vacinação eu não chego perto. é no mínimo engraçado que o maior não-lugar de transmissão de doenças também promova aos jovens cidadãos que se imunizem. junte com as grades que colocaram na plataforma e temos aí o nosso curralzinho completo. e assim esperamos o momento do abate.

quando comecei pretendia falar sobre mais coisas, mas o metrô causa um efeito tão grande na minha pessoa que até as palavras se desbloqueram por uns momentos. é pena, fica para outra vez os arco-íris mais coloridos que já vi por aqui, a partir de um ônibus lotado da Av. Rebouças, e como o padre Anchieta me guiou até o centro da cidade (é sério).

bons calafrios pra vocês que o frio não arrega tão cedo. cadê minhas meias de lã que a vovó fez?

Annabelle Dances

3 mar

1894

algumas cenas dos últimos meses

22 jan

Quanta gente se torna aquilo que mais odeia. É só prestar um pouco de atenção. Lentamente se moldam numa formatação pronta, abaixando a cabeça para um conformismo justificado por uma necessidade de encaixe, conseguir respeito do meio que o abortou.

(a vida é assim, não há outro jeito, a morte não é tão distante e somos todos produtos da nossa herança cruel)

Ex-punks agora trabalham em publicidade, vendendo produtos que consideravam uma merda – só porque não podiam comprá-los. Alguns outros acham que ser contra o sistema significa dar rolê chapando pelo centro da cidade em roupinhas estilosas, que declaram sua posição original de longe. Tanto protesto numa bolsa de oncinha, quanta revolta numa tatuagem oldschool feita no melhor estúdio de S. Paulo. Coroas, rosas, caveiras, espadas, andorinhas, faixas, corações, âncoras; a gente já conhece tudo desde os anos 50. Fora os moicanos tímidos, escondidos debaixo de outra porção de cabelo comprido. Durante o dia sou operário subordinado, à noite sou contra mim mesmo. É qualquer coisa engraçada achar que uma declaração visual substitui ideias e atitudes consistentes, ou que agressividade cega é um meio de se combater a ignorância.

Ex-meninos fazendeiros vieram para a cidade, adquiriram hábitos tipicamente urbanos e chamam os outros com ideias menos estrambólicas de caipiras, sem gosto apurado. Seu sonífero é a televisão. Num domingo qualquer percebem, durante uma conversa num restaurante badalado, que já não lembram quase nenhum canto de pássaros que freqüentavam a fazenda, nem seus nomes ou cor do peito. Foi há séculos que perambulavam pelo algodoeiro. Abaixam a cabeça durante dois segundos, em reflexão, mas assim que surge transparente o vazio do dia-a-dia que escolheram para si, logo cortam com um fatalismo. É tarde, não posso reverter tudo agora, jogar para o alto, e a minha mulher com seus vestidos e colares, do outro lado da mesa, e o meu filho com seus videogames e aulas de bateria… não. Dão mais uma garfada cheia de satisfação simulada no prato saboroso (e salgado), pede outra caipirinha de frutas amarelas. Ainda lhe restam esses prazeres…

Ex-fumantes ficam usando a voz rouca como lição de moral. Gostar de cigarrinho de palha quer dizer que em breve você deixará de tomar banho também.

Ex-socialistas se entregam ao capitalismo de peito aberto, dizendo que foi tudo delírio de juventude, por finalmente encontrarem seu lugar no sistema que agora lhes trata tão bem. Sabem perfeitamente tudo o que ocorre na política, para onde vai o dinheiro da Petrobrás, e onde a China está errando. Alteram-se à menor discordância porque sempre estão com a razão, já conheceram tudo, e não enxergam como o resto do mundo inexperiente não os reconhecem como mentor absoluto. Distribuem seu lixo como presentes caros, esperando gratidão eterna dos beneficiados. Como somos bons, sustentamos a todos, ninguém aqui seria NADA sem o nosso esforço tão nobre. E gargalham orgulhosos de si. Qualquer pessoa que não colabore para a construção do seu ponto de vista é um incômodo e deve ser neutralizado (internado no hospício, num curso de liderança, num emprego medíocre). Não se pode contestar o provedor.

Estranho modo de se superar… parece que as pessoas até passam por um momento de ruptura, o cérebro delas não é tão ruim assim, de algum modo SABEM. Mas quando olhamos outra vez já escolheram não usá-lo tanto, recaem num padrão antigo e confortável com toda a força, talvez um pouco deslocado, porque tudo bem, não vamos nos condenar, ficam citando que culpa é cristã pra gastar $300 no almoço de domingo ou suprir caprichos diversos. Isso depois de supostas psicoterapias à base de remédios (que todo mundo deveria fazer, por sinal)! De peso na consciência a desequilíbrio químico no cérebro. São tantos os tratamentos disponíveis, alinhe-se: há algo de errado com você se não está satisfeito em trabalhar, pagar as suas contas e aproveitar o melhor que o dinheiro pode te comprar nas horas vagas. Quem não concorda em submeter a vida a este ciclo idiota sem resistir, é vagabundo, problemático, e deve ser corrigido. A tendência é passar do conhecido ao conhecido ao lado, só desviar o foco de atuação; achar o pacote comportamental mais próximo que vai guiar as suas ações, conceder a solução para todos os conflitos. Ame-se acima de tudo (e foda-se o resto do planeta). Mandam por e-mail apresentações de powerpoint ensinando que não nos devemos preocupar com a nossa reputação, o que ironicamente dá margem para uma expansão do ego se assumir em diversos personagens grotescos, a maioria baseada em recalques desde a infância. E as pessoas escolhem se transferir para objetos e símbolos todos os dias, esmagando tudo o que poderiam ser, pesarosos por estarem distantes de uma personalidade “criativa”, especial. Mas tudo bem, contanto que se esteja ganhando dinheiro e os outros saibam disso.

Vangloriam-se

antes estava LÁ, mas hoje estou AQUI,

como se houvesse dois mundos divididos por um muro de hipocrisia: o que era ruim antes do que é bom agora. Meus parabéns pela evolução sem igual. Só não me venham com discursinhos de conversão

estou no caminho do bem, só dou o melhor de mim e estou seguro quanto a isso

PFFFFFT!!!

(com bastante cuspe.)

hojashojashojashojasHOJAShojashojashojashojashojashojashojas

27 dez

dentre porcarias tantas da internet insone, por que não o blog? um alô geral para a nação, continuo respirando, é verdade, só a escrita é que vai meio mal das perna, espasmódica que nem barata tonta; os papeis velhos e esquecidos (intermináveis!) aqui na cidade natal fazem um belo fogo verde na churrasqueira, com um bocadito de alcool. não queimei tudo – sobraram uns desenhos de oitava série, nada que tenha grafite 6B, poemas e lições de Ciências, mas fui percebendo que o processo de seleção desses objetos-imagem-memória é semelhante a uma delimitação do eu, do que é desejável ou não segundo os meus critérios atuais, tão frágeis quanto os que possuía antes. nós retraçamos a nossa história pessoal sempre que nos perdemos dentro dela. e será possível enterrar períodos considerados “negros”, ou o abandono é também uma fuga? contento-me com o simples desprendimento de atirar o que antes eram registros preciosos para alimentar o fogo de três minutos, e qualquer questão sem resposta que se me apresente no momento é a relutância de seguir em frente. paradoxalmente, as interrogações mal colocadas fecham todas as portas ao abri-las de maneira simultânea.

a última queima foi de um auto-retrato prometido como presente a um familiar há meses, que estava já embalado para entrega. não quero a minha imagem adornando o criado-mudo de ninguém, ou substituindo minha presença.

nessas horas a gente também cai na real que frequenta aquele lugar chamado escola durante quinze anos, compra apostila, caderno de matemática (sempre o mais grosso), física, química, biologia, história, geografia, português, inglês, porque é tudo tão importante, tão cheio de nomes e números e letras em esquemas, tabelas, resumos… copia a matéria da lousa, resolve os logaritmos, calcula variação de temperatura e faz interpretação de texto, para alguns anos depois nem reconhecer a caligrafia e muito menos refazer os raciocínios que elas descrevem. o ciclo de Krebs, antes tão óbvio, passa a ser vaga lembrança de algo a ver com síntese energética e a figurinha de um caranguejo. mas os calhamaços de papel ainda estão lá, provando que você estudou, embora hoje não saiba porra nenhuma, nem o salgado meio cru que comia de lanche no intervalo, nem a marca do cigarro que fumava na frente da estátua medonha de S. Francisco.

e o que fazer? não dá pra rever tudo aquilo, por mais que tenha vontade. aí um dos conhecimentos perdidos de repente deu um sorrisinho simpático: mãos na bacia cheia de papel picado e molhado. procurei por receita de papel artesanal e descobri que é mesmo simples de fazer em casa, fora a parte robótica de picar todos os exercícios do colegial em quadradinhos (porém nada plastificado serve!). cumprido isso, deixar de molho n’água durante um dia, liquidificar tudo até virar pasta, desepejar na bacia acrescentando cola (e frescurinhas como pétalas, essências, pigmentos, se aprouver), misturar com a mão. para dar o formato, basta uma tela de improviso feita de meia-calça velha com moldura de arame, ou até uma peneira grande, na falta de uma tela apropriada; esta deve ser mergulhada na bacia e retirada beeem lentamente, para que a pasta não disperse com o movimento. secar no sol, ou no forno baixíssimo em dias úmidos. passar no ferro, se também aprouver. o grande esquema é que a pasta de papel pode ser moldada também noutros formatos, sejam caixas ou as infames esculturas de papier maché. o resultado não é homogêneo como o papel industrial, mas alivia o peso dos anos com a sensação de que aqueles estudos empoeirados finalmente têm alguma utilidade prática.

[enquanto isso, lembrando de súbito que é fim de ano, neste Natal ninguém fez as orações de costume e o ano-novo reserva alguns bafafás na manga. aguardemos, pois, que as pessoas continuam meio malucas como lhes é normal, e nunca vou entender a sua estranha satisfação em ter o dedo em riste para dizer que malucos são os outros - sempre os outros...]
o lance da descoberta não está em se familiarizar com algo desconhecido, mas estranhar o familiar… não importa quantos dedos se levantem em protesto.

sssssssssssssss

1 dez

desentitulado

27 out

A interrupção abrupta e insatisfeita do fluxo verbal – que tantas vezes se excede monstruosamente – não é novidade alguma, nem para esta pequena lula gigante, nem para os seus precedentes na internet, nem para os arquivos mortos em papel. Por mais que se deseje um recolhimento imparcial, talvez despercebido, a própria abstenção comunica uma ruptura de qualquer sorte, e sutilmente admite que o vazio deste lado de cá na verdade se deve a um processo simultâneo do outro lado de lá.

Silêncio da desarticulação, o cérebro é questionado em suas funções primordiais e vira uma geleia bem viscosa num tom ocre, semiviva, trabalhando num nível misterioso de desvelamento próprio assemelhado a uma regressão especular e que, como recôndito inexplorado, gera o estranhamento do medo – e também a consciência do ridículo inerente a toda existência. A comicidade da vida fica cada vez mais evidente com a repetição cíclica, espera aí que já caí neste fosso antes e nem fui capaz de reconhecê-lo; quanta estupidez. Mas há que despencar quantas vezes for necessário para optar pelo verdadeiro caminho que leva de volta ao chão, ainda que seja o mais íngreme, o que também só é possível quando se percebe que aquilo de fato é um buraco ardiloso revestido de areia movediça, e não uma toca confortável. Os inevitáveis escorregões de volta para baixo ao meio da escalada só são superados com a determinação, e diria que são os episódios que mais exigem tutano. A desistência, a preguiça e a loucura são diversos nomes para o mesmo pretexto do ser passivo, a sombra da morte em plena vida. Era assim que acordava como planta, vegetal indiferente, uma espécie de trepadeira expandida e conectada aos lençois como se deles dependesse a minha sobrevivência.

É um período em que as certezas se dissolvem e sensações irrompem em todos os seus matizes, o choro não se diferencia do riso porque nada se diferencia de nada; é um grande painel furta-cor do indefinível, uma nova realidade que fascina e desconcerta, a noção da nossa sina limítrofe que abre novas possibilidades, imergindo num mar paradoxal. E no meio desse mar eu passei de vegetal enraizado a líquido maleável, um pântano verde e lodoso, quente e profundo, com uma visão um tanto turva das águas que me compõem. Sendo assim, não sei bem do que estou falando e nem sei se entendo mesmo as frases que escrevo, tanto agora como sempre, quase uma desconfiança constante da validade dos meus processos mentais que acaba por paralisar as minhas tentativas de comunicação, muitas vezes tortas ou descabidas. Mas é assim que as coisas vão se ajeitando, devagar, devagarzinho, cagando e aprendendo com a sujeira feita. Toda a gente passa por reavaliações e a uma dada altura se precisa admiti-las ao invés de vestir uma camuflagem malsucedida, o fechamento da ostra orgulhosa demais para erros protela todo o progresso por negar uma interação benéfica e esclarecedora, que ajudaria a desconstruir mais facilmente os pensamentos inúteis e comportamentos derivados. Por mais que se saiba o que abandonar e os motivos para fazê-lo, a dificuldade maior reside em alterar o padrão de hábitos solidificado com os anos – ao menos até que a falsa noção de identidade caia por terra de uma vez.

E a ironia de hoje se traduz numa citação de origem desconhecida (ao Google):

 

when all is said and done, there is more said than done.

aparição do serafim Parsifal com foles e aparato solar

23 out

parsifal

bizorros bizonhos

17 out

bizorros

suavizando a paisagem de todos os dias.

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