Quanta gente se torna aquilo que mais odeia. É só prestar um pouco de atenção. Lentamente se moldam numa formatação pronta, abaixando a cabeça para um conformismo justificado por uma necessidade de encaixe, conseguir respeito do meio que o abortou.
(a vida é assim, não há outro jeito, a morte não é tão distante e somos todos produtos da nossa herança cruel)
Ex-punks agora trabalham em publicidade, vendendo produtos que consideravam uma merda – só porque não podiam comprá-los. Alguns outros acham que ser contra o sistema significa dar rolê chapando pelo centro da cidade em roupinhas estilosas, que declaram sua posição original de longe. Tanto protesto numa bolsa de oncinha, quanta revolta numa tatuagem oldschool feita no melhor estúdio de S. Paulo. Coroas, rosas, caveiras, espadas, andorinhas, faixas, corações, âncoras; a gente já conhece tudo desde os anos 50. Fora os moicanos tímidos, escondidos debaixo de outra porção de cabelo comprido. Durante o dia sou operário subordinado, à noite sou contra mim mesmo. É qualquer coisa engraçada achar que uma declaração visual substitui ideias e atitudes consistentes, ou que agressividade cega é um meio de se combater a ignorância.
Ex-meninos fazendeiros vieram para a cidade, adquiriram hábitos tipicamente urbanos e chamam os outros com ideias menos estrambólicas de caipiras, sem gosto apurado. Seu sonífero é a televisão. Num domingo qualquer percebem, durante uma conversa num restaurante badalado, que já não lembram quase nenhum canto de pássaros que freqüentavam a fazenda, nem seus nomes ou cor do peito. Foi há séculos que perambulavam pelo algodoeiro. Abaixam a cabeça durante dois segundos, em reflexão, mas assim que surge transparente o vazio do dia-a-dia que escolheram para si, logo cortam com um fatalismo. É tarde, não posso reverter tudo agora, jogar para o alto, e a minha mulher com seus vestidos e colares, do outro lado da mesa, e o meu filho com seus videogames e aulas de bateria… não. Dão mais uma garfada cheia de satisfação simulada no prato saboroso (e salgado), pede outra caipirinha de frutas amarelas. Ainda lhe restam esses prazeres…
Ex-fumantes ficam usando a voz rouca como lição de moral. Gostar de cigarrinho de palha quer dizer que em breve você deixará de tomar banho também.
Ex-socialistas se entregam ao capitalismo de peito aberto, dizendo que foi tudo delírio de juventude, por finalmente encontrarem seu lugar no sistema que agora lhes trata tão bem. Sabem perfeitamente tudo o que ocorre na política, para onde vai o dinheiro da Petrobrás, e onde a China está errando. Alteram-se à menor discordância porque sempre estão com a razão, já conheceram tudo, e não enxergam como o resto do mundo inexperiente não os reconhecem como mentor absoluto. Distribuem seu lixo como presentes caros, esperando gratidão eterna dos beneficiados. Como somos bons, sustentamos a todos, ninguém aqui seria NADA sem o nosso esforço tão nobre. E gargalham orgulhosos de si. Qualquer pessoa que não colabore para a construção do seu ponto de vista é um incômodo e deve ser neutralizado (internado no hospício, num curso de liderança, num emprego medíocre). Não se pode contestar o provedor.
Estranho modo de se superar… parece que as pessoas até passam por um momento de ruptura, o cérebro delas não é tão ruim assim, de algum modo SABEM. Mas quando olhamos outra vez já escolheram não usá-lo tanto, recaem num padrão antigo e confortável com toda a força, talvez um pouco deslocado, porque tudo bem, não vamos nos condenar, ficam citando que culpa é cristã pra gastar $300 no almoço de domingo ou suprir caprichos diversos. Isso depois de supostas psicoterapias à base de remédios (que todo mundo deveria fazer, por sinal)! De peso na consciência a desequilíbrio químico no cérebro. São tantos os tratamentos disponíveis, alinhe-se: há algo de errado com você se não está satisfeito em trabalhar, pagar as suas contas e aproveitar o melhor que o dinheiro pode te comprar nas horas vagas. Quem não concorda em submeter a vida a este ciclo idiota sem resistir, é vagabundo, problemático, e deve ser corrigido. A tendência é passar do conhecido ao conhecido ao lado, só desviar o foco de atuação; achar o pacote comportamental mais próximo que vai guiar as suas ações, conceder a solução para todos os conflitos. Ame-se acima de tudo (e foda-se o resto do planeta). Mandam por e-mail apresentações de powerpoint ensinando que não nos devemos preocupar com a nossa reputação, o que ironicamente dá margem para uma expansão do ego se assumir em diversos personagens grotescos, a maioria baseada em recalques desde a infância. E as pessoas escolhem se transferir para objetos e símbolos todos os dias, esmagando tudo o que poderiam ser, pesarosos por estarem distantes de uma personalidade “criativa”, especial. Mas tudo bem, contanto que se esteja ganhando dinheiro e os outros saibam disso.
Vangloriam-se
antes estava LÁ, mas hoje estou AQUI,
como se houvesse dois mundos divididos por um muro de hipocrisia: o que era ruim antes do que é bom agora. Meus parabéns pela evolução sem igual. Só não me venham com discursinhos de conversão
estou no caminho do bem, só dou o melhor de mim e estou seguro quanto a isso
PFFFFFT!!!
(com bastante cuspe.)




