eu poderia falar que é só um pão de tahine com açúcar mascavo. e é mesmo, ficou gostoso pacas, comi até enjoar e tal. as formigas não curtiram, ainda bem. o último exemplar da fornada ficou na assadeira por mais de uma semana esperando uma boca faminta, mas só conseguiu servir de modelo para uma sessão de fotos (o que é um destino até que aventuroso para as ambições de qualquer massa). com uma olhada não tão atenta assim, logo se percebe que ele não era bem como os outros pães. aliás, só analisando cuidadosamente é que se vê um pão.

(reação da primeira testemunha: é um cocôôô como que vou comeeer?)
eu poderia também tê-lo envernizado e botado um título honroso: homenagem à primeira criação humana. porque é isso mesmo o que a gente faz, ingere, digere e um tempinho depois vai lá expelir o resultado final. só vira arte se tem etiqueta, meu amigo. quem nunca admirou suas obras-primas intestinais emolduradas pelo vaso de porcelana, através de um vidro de proteção aquoso? as variações de odores, texturas e tons podem ser intrigantes, principalmente quando se especula se aquela parte mais mole e verdolenga no dia anterior ainda parecia um apetitoso punhado de brócolis. ah, como é belo o poder de transformação!
inclusive essa é uma boa sugestão de jogo de adivinhações para dias chuvosos, ou em que a coisa mais interessante que você produziu saiu pelo seu ânus. chame os amigos, compartilhem suas criações espontâneas. analisar a própria merda é treinamento leve, melzinho na chupeta; afinal de contas presumo que você deve saber sobre o seu último jantar (se não… bom, aí o problema já é outro). desafiante mesmo é reconstituir as refeições alheias, quase um talento de perícia. ouvi dizer que alguns cientistas são especialistas nisso. basta olhar para um monte de excremento… ahá, pelo jeito este elefantinho andou comendo amendoins demais. sua intimidade com o meio chega a tal nível que sabem datar o horário exato em que ocorreu a defecação pela consistência, temperatura e tipo de inseto habitando o dejeto.
(aproveito a brecha para fazer uma confissão: às vezes tenho o péssimo costume de julgar as pessoas pelo cocô que fazem. três bolotas escuras e secas, expelidas com um esforço formidável depois de um dia e meio, é broxante. menos hambúrguer e mais fibra, rapaz, aí a gente conversa.)
mas só um dia de intensa inspiração culinária possibilita o nascimento de uma comida que já aparenta ter sido processada por outro organismo. alguns poderão considerar mau gosto, como a primeira testemunha. vão em frente. nessas horas ninguém lembra mesmo que cerveja choca se assemelha muito a um potinho de mijo concentrado. quando o álcool tá acabando, o mercado já fechou e a galera ainda tá na pilha, a gente vira o copo mesmo, não tá nem aí pro que parece ou deixa de parecer. e se o pãozinho tá saboroso e nutritivo (hmmmm!), o estômago tá roncando e contorcendo, não é até divertido que ele por acaso (ou achou que foi calculado? as obras têm vida, você é só um reles instrumento), que ele por acaso tenha saído do forno parecendo que veio direto daquele cantinho no quintal forrado pro cachorro companheiro? ele eu garanto que não ia se importar nem um pouco. o ser humano é um ser visualmente complicado…
EEENTRETANTO, eu vos entendo. juro que sim. ninguém quer comer algo que pareça merda. ninguém vai ao restaurante desejando ardentemente um bolo de esterco, a não ser que inventem um lugar para a sua árvore da felicidade socializar com outras plantinhas enquanto obtém adubo de qualidade. aí eu lanço uma questão filosófica profunda: vocês comeriam merda que pareça comida? pensem com carinho. a resposta virá na hora certa. nem antes, nem depois. caham.
e a próxima barreira a ser quebrada é justamente esse inverso: cagar algo parecido com um pão francês, ou um pão preto, pra sermos mais condizentes com a realidade. esta é uma missão só para aqueles que se aprofundaram com dedicação nas correspondências entre as fases pré/pós digestão do alimento, a ponto de manipular previamente o resultado. se alguém conseguir tal feito, mande uma fotinho que a gente monta uma série conceitual, com a devida identificação de ARTE pra não confundir o povo.


