A interrupção abrupta e insatisfeita do fluxo verbal – que tantas vezes se excede monstruosamente – não é novidade alguma, nem para esta pequena lula gigante, nem para os seus precedentes na internet, nem para os arquivos mortos em papel. Por mais que se deseje um recolhimento imparcial, talvez despercebido, a própria abstenção comunica uma ruptura de qualquer sorte, e sutilmente admite que o vazio deste lado de cá na verdade se deve a um processo simultâneo do outro lado de lá.
Silêncio da desarticulação, o cérebro é questionado em suas funções primordiais e vira uma geleia bem viscosa num tom ocre, semiviva, trabalhando num nível misterioso de desvelamento próprio assemelhado a uma regressão especular e que, como recôndito inexplorado, gera o estranhamento do medo – e também a consciência do ridículo inerente a toda existência. A comicidade da vida fica cada vez mais evidente com a repetição cíclica, espera aí que já caí neste fosso antes e nem fui capaz de reconhecê-lo; quanta estupidez. Mas há que despencar quantas vezes for necessário para optar pelo verdadeiro caminho que leva de volta ao chão, ainda que seja o mais íngreme, o que também só é possível quando se percebe que aquilo de fato é um buraco ardiloso revestido de areia movediça, e não uma toca confortável. Os inevitáveis escorregões de volta para baixo ao meio da escalada só são superados com a determinação, e diria que são os episódios que mais exigem tutano. A desistência, a preguiça e a loucura são diversos nomes para o mesmo pretexto do ser passivo, a sombra da morte em plena vida. Era assim que acordava como planta, vegetal indiferente, uma espécie de trepadeira expandida e conectada aos lençois como se deles dependesse a minha sobrevivência.
É um período em que as certezas se dissolvem e sensações irrompem em todos os seus matizes, o choro não se diferencia do riso porque nada se diferencia de nada; é um grande painel furta-cor do indefinível, uma nova realidade que fascina e desconcerta, a noção da nossa sina limítrofe que abre novas possibilidades, imergindo num mar paradoxal. E no meio desse mar eu passei de vegetal enraizado a líquido maleável, um pântano verde e lodoso, quente e profundo, com uma visão um tanto turva das águas que me compõem. Sendo assim, não sei bem do que estou falando e nem sei se entendo mesmo as frases que escrevo, tanto agora como sempre, quase uma desconfiança constante da validade dos meus processos mentais que acaba por paralisar as minhas tentativas de comunicação, muitas vezes tortas ou descabidas. Mas é assim que as coisas vão se ajeitando, devagar, devagarzinho, cagando e aprendendo com a sujeira feita. Toda a gente passa por reavaliações e a uma dada altura se precisa admiti-las ao invés de vestir uma camuflagem malsucedida, o fechamento da ostra orgulhosa demais para erros protela todo o progresso por negar uma interação benéfica e esclarecedora, que ajudaria a desconstruir mais facilmente os pensamentos inúteis e comportamentos derivados. Por mais que se saiba o que abandonar e os motivos para fazê-lo, a dificuldade maior reside em alterar o padrão de hábitos solidificado com os anos – ao menos até que a falsa noção de identidade caia por terra de uma vez.
E a ironia de hoje se traduz numa citação de origem desconhecida (ao Google):
when all is said and done, there is more said than done.




