A Lula-Gigante

desentitulado

091027 · Deixe um comentário

A interrupção abrupta e insatisfeita do fluxo verbal – que tantas vezes se excede monstruosamente – não é novidade alguma, nem para esta pequena lula gigante, nem para os seus precedentes na internet, nem para os arquivos mortos em papel. Por mais que se deseje um recolhimento imparcial, talvez despercebido, a própria abstenção comunica uma ruptura de qualquer sorte, e sutilmente admite que o vazio deste lado de cá na verdade se deve a um processo simultâneo do outro lado de lá.

Silêncio da desarticulação, o cérebro é questionado em suas funções primordiais e vira uma geleia bem viscosa num tom ocre, semiviva, trabalhando num nível misterioso de desvelamento próprio assemelhado a uma regressão especular e que, como recôndito inexplorado, gera o estranhamento do medo – e também a consciência do ridículo inerente a toda existência. A comicidade da vida fica cada vez mais evidente com a repetição cíclica, espera aí que já caí neste fosso antes e nem fui capaz de reconhecê-lo; quanta estupidez. Mas há que despencar quantas vezes for necessário para optar pelo verdadeiro caminho que leva de volta ao chão, ainda que seja o mais íngreme, o que também só é possível quando se percebe que aquilo de fato é um buraco ardiloso revestido de areia movediça, e não uma toca confortável. Os inevitáveis escorregões de volta para baixo ao meio da escalada só são superados com a determinação, e diria que são os episódios que mais exigem tutano. A desistência, a preguiça e a loucura são diversos nomes para o mesmo pretexto do ser passivo, a sombra da morte em plena vida. Era assim que acordava como planta, vegetal indiferente, uma espécie de trepadeira expandida e conectada aos lençois como se deles dependesse a minha sobrevivência.

É um período em que as certezas se dissolvem e sensações irrompem em todos os seus matizes, o choro não se diferencia do riso porque nada se diferencia de nada; é um grande painel furta-cor do indefinível, uma nova realidade que fascina e desconcerta, a noção da nossa sina limítrofe que abre novas possibilidades, imergindo num mar paradoxal. E no meio desse mar eu passei de vegetal enraizado a líquido maleável, um pântano verde e lodoso, quente e profundo, com uma visão um tanto turva das águas que me compõem. Sendo assim, não sei bem do que estou falando e nem sei se entendo mesmo as frases que escrevo, tanto agora como sempre, quase uma desconfiança constante da validade dos meus processos mentais que acaba por paralisar as minhas tentativas de comunicação, muitas vezes tortas ou descabidas. Mas é assim que as coisas vão se ajeitando, devagar, devagarzinho, cagando e aprendendo com a sujeira feita. Toda a gente passa por reavaliações e a uma dada altura se precisa admiti-las ao invés de vestir uma camuflagem malsucedida, o fechamento da ostra orgulhosa demais para erros protela todo o progresso por negar uma interação benéfica e esclarecedora, que ajudaria a desconstruir mais facilmente os pensamentos inúteis e comportamentos derivados. Por mais que se saiba o que abandonar e os motivos para fazê-lo, a dificuldade maior reside em alterar o padrão de hábitos solidificado com os anos – ao menos até que a falsa noção de identidade caia por terra de uma vez.

E a ironia de hoje se traduz numa citação de origem desconhecida (ao Google):

 

when all is said and done, there is more said than done.

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aparição do serafim Parsifal com foles e aparato solar

091023 · 1 Comentário

parsifal

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bizorros bizonhos

091017 · Deixe um comentário

bizorros

suavizando a paisagem de todos os dias.

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091012 · Deixe um comentário

interlude

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#II – Idle Days

090919 · 3 Comentários

and we grow fat

on the charms of our idle dreary days

seen the shadows grow

see an ominous display

with no alarm

 

Muita enrolação na primeira parte para um comentário acerca do último show a que compareci – Beirut, mais uma dessas novas bandinhas da juventude classe média que tem tempo de sobra para os modismos da internet, círculo do qual eu já me acreditava fora há um tempo. Comprei o ingresso e planejava ir sozinha, até que descobri uma leva de conhecidos que faria o mesmo, não com surpresa: um colega de classe até formou um cover que se chama Beirutando. Neste caso, a conexão que a música estabelece não é nada etérea, mas adolescente e social, um mero assunto em comum para que as pessoas não se sintam sozinhas – ou melhor, se sintam parte de alguma coisa.

Já devia ter desconfiado de todo o hype que já se criara só analisando de onde veio a indicação para que ouvisse banda. Mas fui lá e baixei o álbum Gulag Orkestar, todo chupinhado em música dos Bálcans e que, como os outros, tem uns vocais e arranjos meio bregas. Cafonice geralmente não é obstáculo para mim, irrelevo, incorporo, acho legal, e procuro sempre algo que me toque na melodia, nem que seja um solinho besta de trompete – - e até fui gostando da coisa. A faixa preferida desde o princípio é a Bratislava, boa música, independente de tudo, e provavelmente a única lembrança que vai me restar de toda a banda. O que começou a pegar depois de um tempo é uma certa apreensão de melancolia fingida, o brega já virava Kitsch, e os vocais com ukelele de repente pareceram ridículos, pretensiosos e totalmente desproporcionais.

E já me haviam avisado: Beirut? aquilo é só um cara num apartamento que viu demais os filmes do Emir Kusturica. Rebati em favor da ideia de que qualquer um é capaz de produzir coisas de qualidade, não importa, sempre vale a pena ouvir; mas nesta época ainda não sabia que toda uma parcela da geração criava culto em torno da figura do vocalista Zach Condon. Tudo o que é popular demais a gente desconfia, e confesso que, por mais birra que seja, parte da minha simpatia por conjuntos musicais está diretamente vinculada à sua difusão em determinado meio ou grupo (até hoje não consegui superar o preconceito contra as bandas islandesas que eram tão queridinhas há uns anos). Pode ser uma recusa em se ver associado a um nicho social, afinal de contas uma banda nunca é só a música, mas traz consigo uma imagem, um universo próprio que os fãs também ajudam a criar.

Se tivesse sabido logo de cara em que pé estava Beirut, provavelmente nunca teria cogitado dar-lhe uma chance. Mas não sabia, fui, ouvi com ouvidos limpos de tudo, e admito que me agrada em alguns sentidos, apesar do hype, apesar da cafonice, apesar dos fãs. Portanto, fui ao show no dia 11 de setembro, e de repente me vi transportada de volta a uma multidão de jovens modernos, os antigos colegas dentre eles, com cortes de cabelo geométricos e multicolores, os mesmos que estiveram em todos os últimos TIM Festival e similares. Ao meu lado se sentou um baixotinho bêbado, bixo da Cásper Líbero, que ficava me importunando a cada cinco minutos e ainda derrubou rum na minha bolsa. Manacá foi a banda de abertura, condizente com o estilo do Beirut, e que fez a trilha sonora para a minissérie Capitu. Chamaram minha atenção com uma versão de Canto de Ossanha, de Baden Powell, mas nada fora do ordinário. Poderia ter sido pior, entretanto, creio que fizeram uma boa seleção. Os caras do Beirut entraram, não estavam bêbados como no show de Salvador, e tocaram tudo certinho – só isso. Claro que, como eu havia esquecido os óculos, não aproveitei muito visualmente (só ocasionais espiadelas no telão), e também não sei relacionar as músicas com os respectivos nomes para fazer uma crítica mais profunda, mas do que pude apreender foi um show ensaiado, calmo, agradável, e estava tudo certo até eles começarem com as puxações de saco para o público: Zach Condon a enrolar-se na bandeira do Brasil, “não sei dizer Português”, as menininhas gritando e toda a euforia. Acho desnecessário (enervante), principalmente porque tocaram um arranjo próprio de Aquarela do Brasil, era o que bastava para estabelecerem uma comunicação com a plateia local. Aliás, isso foi no segundo encore – de três. Precisam mesmo sair do palco a cada duas músicas, fazer suspense? E se não tocaram Brastislava, ao menos houve uma melodia mais próxima dos Bálcans de verdade, chamada Siki Siki Baba.

Saí atordoada com a multidão, meio sem saber se a banda entregou o que eu esperava, era aquilo mesmo que eu já ouvia nas gravações e tive a sensação de dinheiro malgasto. Beirut é a minha última banda social, resquício de um passado, e se Zach Condon é só um cara brisando num apartamento, todos os seus fãs provavelmente o são também. Não percam o seu tempo com ele; se quiserem uma dica no gênero, ouçam A Hawk And A Hacksaw que é indizivelmente melhor.

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parêntese

090914 · Deixe um comentário

(Revi o Metropolis de Fritz Lang e fiquei surpresa por não ter me lembrado da cena que reconta a história bíblica da Torre de Babel como a sociedade, principalmente por ser tão relacionada à frase-chave do filme – não há entendimento entre as mãos e o cérebro a menos que o coração seja o mediador. Então me ocorreu que as lulas-gigantes, apesar de possuírem três corações, têm mãos que saem direto do cérebro.

E como isto seria?)

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#I – Soft Silly Music

090913 · Deixe um comentário

…so make all your fat fleshy fingers to moving
and pluck all your silly strings

and bend all your notes for me and

soft silly music is meaningful, magical
the movements were beautiful

all in your ovaries…

.

.

Outra vez surge uma oportunidade irresistível de comentar a dimensão musical que ocupa grande parte de meus dias, a qual é mais sentida que compreendida. O caminho é absorver as melodias para torná-las parte de si, tê-las vibrando através dos ossos, ressonando pelo peito, a preencher os vazios e estabelecendo um novo ritmo metabólico. E não há incorporação que seja completa sem o contrafluxo exterior, que começa com um inexprimível nó na garganta e a certeza de que algo está prestes a explodir: ainda faltam as devidas correspondências para que o arrebatamento seja criação. O corpo, instrumento primo, mostra suas tentativas no pé que marca o tempo, os dedos da mão que definem o compasso, a voz que entoa a melodia; até que a compreensão transborde os limites da pele e exija se manifestar noutros meios, que só são restritos pela capacidade imaginativa do homem. Existe música esperando por ser descoberta em cada canto da existência.

Já me referi à expressão musical (e toda a arte) como um bálsamo que poupa de estourar o fio que nos mantém íntegros, restabelecendo o funcionamento entre as diversas partes que compõem o que somos. Essa transformação visceral de toda a sorte de sentimentos em vibrações de som e ritmo é dotada de uma força tamanha que subsiste como parte da alma, estabelecendo novas conexões e atmosferas entre os seres. Ouvir uma percussão ritual é partilhar da intenção coletiva que ali foi depositada, dependendo do grau de envolvimento que é investido; cada instrumentista deixa impresso no ar um aspecto de seu ser que se alinha com os outros para dar origem a um novo organismo etéreo, e ao se permitir ser insuflado por ele é também contribuir com sua impressão própria.

O estilo que mais me agrada é o da sinceridade, em que a música é quase respiração. Várias vezes me percebo com uma predileção por versões demo, caseiras, experimentais, por serem tão desnudas de pretensões: seja o homem ali sozinho com um violão cantando suas mágoas ou o grupo de tiozinhos que gosta de reviver uns sambas no domingo à tarde. Talvez isto leve diretamente ao folk, a música do povo, palavra que se aplica não só à raiz norte-americana, como somos levados a pensar, mas se estende por todos os lugares e culturas. Em minha concepção qualquer um é capaz de produzir folk sem a necessidade de uma tradição específica para se considerar como tal, porque a essência reside em tecer fábulas a partir da concretude quotidiana de um indivíduo ou grupo, e também porque cada homem contém em si o holograma de toda a humanidade. Resolvi tomar partido de uma ideia que teve o músico Devendra Banhart em substituir estigmas modernos como freak-folk, neofolk e inúmeras vertentes por nada mais que Naturalismo, remetendo particularmente ao seu amor pela Tropicália e resgatando um derivado Romântico de aproximar a humanidade de suas origens naturais. Não é complexo, não é sofisticado, revolucionário ou inovador – é somente o homem cantando alegrias e percalços de se viver, não importa quem é ou de onde vem, e a melodia que ressoa é uma ponte de união entre a sua mente e todas as outras.

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O FOLCLORE

090909 · Deixe um comentário

saci

ANÁLISE CRÍTICA:

O grande tema nacional, revisitado tantas vezes e descrito por autores como Monteiro Lobato, ganha uma interpretação inusitada na mão da jovem artista, que se utiliza de colagem e lápis de cor, um meio híbrido, para dar vida à sua visão individual da nossa mítica figura. São-nos apresentadas rupturas de grande importância, considerando o ambiente insuflado de catolicismo em que cresceu. O Saci Pererê, pela tradição branca um negrinho perneta endiabrado, é transformado em gentil mocinha loura, retratada em nu parcial, embora ainda perneta e flagrada em seu vício – o cachimbo. Essa inversão audaciosa, reveladora, resulta num questionamento profundo que incomodou aos mais conservadores: quem exatamente é essa figura feminina? O rosto delicado, marcado com lábios fartos, nos diz que se trata de uma jovem, provavelmente ao fim de sua puberdade. Apesar do esforço de alguns estudiosos em argumentar que esta poderia ser a irmã do Saci Pererê, baseando-se na ausência da perna direita como evidência de característica genética, a hipótese é contestada pelo distanciamento racial que existe entre os dois. É um impasse que ainda exige dedicação e intrigará gerações por vir. Admitindo que emana certa sensualidade do olhar oblíquo e lábios vermelhos, a ideia incômoda de que ela possa ser a esposa do Saci, afinal, quebra com a imagem que se faz não só do próprio Saci como ser único e solitário, mas do papel que representa a mulher em relação a ele. Ainda que de aparência pacífica, também lhe falta uma perna, fuma cachimbo e provavelmente o acompanha em suas diabruras, que passam a ser mais elaboradas com a ajuda. A nudez é o eixo provocante, atesta uma colocação forte de igualdade, tanto na vestimenta quanto nos hábitos, entre os sexos e as raças. Uma transgressão ímpar, que só é superada pela maestria da composição.

Se já havia queixas de alguns religiosos a esta altura, ao analisar mais atentamente a estrutura compositiva ficou evidente que ela possui um formato cruciforme, remetendo à imagem do martírio de Cristo na cruz. A exibição feminina, o fumo e a referência herege pretensiosa foi o suficiente para que a obra fosse desprezada e esquecida, voltando ao conhecimento público só recentemente. Exames realizados por olhares mais sensíveis atribuíram significado à flor que a Saci segura e observa, até então ignorada por todos os críticos anteriores, que justificavam sua existência como elemento de equilíbrio para compensar a falta da perna direita. Nela está contida, em conjunto com os pássaros, uma nova possibilidade interpretativa que coloca em dúvida até mesmo se existe uma relação dessa mulher representada com o Saci Pererê.

AGRADECIMENTOS: esta análise só foi possível devido à equipe do Photobucket. Depois de um longo período sem movimentação, a conta da artista no site foi contestada e, ao verificar seu conteúdo, encontrou-se esta ilustração do começo de sua carreira, hoje perdida, para a felicidade de seus admiradores. Ela gentilmente nos cedeu um breve relato, transcrito de uma gravação telefônica, que segue em anexo:

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- será que os animais também gostam de paisagens bonitas?

090907 · Deixe um comentário

- outro dia perguntava-me se era melhor morrer pela indiferente fúria instintiva de um animal ou pelas mãos frias e calculosas (quentes e passionais) de uma faceta humana.

- então pensava escatologia – em que mãos estará o nosso destino? devemos nos entregar ao estado bruto ou lapidá-lo eternamente? padecemos por nossa selvageria ou sofisticação?

- o único padecimento possível é o medo.

- o medo segregador: aliena-se de sua própria natureza, retalha o ser noutra existência distinta.

- estranha o intelecto do instinto, o filho de sua mãe, o humano do animal.

- se os lobos também admiram a vista quando vão uivar num despenhadeiro…? como é possível serem as naturezas adversas umas às outras? de onde brota o intelecto senão do instinto?

- talvez os lobos uivem para a paisagem, para todo o seu universo, em comunhão absoluta. mas podem seus sentidos lhes segredarem a beleza dessa unidade?

( – revelarem algum mistério?)

- têm eles remota ideia da vastidão da qual são ínfima parte necessária?

- …

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a lula-gigante

090907 · Deixe um comentário

lula gigante

prossegue o affair com o cefalópodo crescidinho – mas sem pescadores.

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deveria escrever?

090830 · Deixe um comentário

se afinasse o ouvido não faria tantas perguntas.

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teo-aforismos

090819 · Deixe um comentário

inesperadamente, as pessoas soltam belas ideias.

Deus é a força que unificadora de tudo o que existe
- Isabelle Louise, prima

Deus é a soma de todas as mentes
- Gustavo, colega

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